Consumir até...
Aqueles sons iam do doce ao ácido e ao amargo, baixando-se ou elevando-se naquele enorme aparelho de rádio, onde ouvidos atentos buscavam o prazer da música misturada com a cultura que, de quase todo o mundo, ali ganhava atento receptor.
E fantasiava enormes e arrojados palcos, em espectáculo de gente de olhos febris de muitas cores, com bocas prontas a abrirem-se em gritos de paixão com objecto ou sem objecto; ou porque sim; ou porque era bom sorrir e fazer amor em tapete de pele e flores... e pronto: aí estava a filosofia da sua existência. E à boa maneira do poeta, talvez nem tivessem filosofia; mas havia, certamente, sentidos.
E foi nesta névoa de êxtase, que lhe entrava pelo tal aparelho de rádio - enorme, para poder conter tanto ímpeto - que se consubstanciou o Daniel.
Tal como tinha acontecido com o Jorge, voltava a gostar muito do nome; diria mesmo que quase gostava tanto...
Mas o nome passou para um plano de bastidores quando, de cabelos vermelhos e pele com a graça de pequenos e múltiplos sinais, ele lhe começou a entrar pela cabeça, ousando romper a sua virgindade de ideias e dando corpo a monólogos de sabedoria e cidade de Paris. Usava, amiúde, a palavra "tolerância", sorrindo à ideia que deslizava nas margens da sua teórica subversão de pré-Abril!
E, depois, já de longe, enviou-lhe bandeiras da revolução em forma de cartas coloridas, com uma caligrafia de sábio testemunhando, por escrito, as suas deambulações verbais...
Desses papéis, fez lentamente uma compota de ilusões que guardou em frasco hermético, durante anos e anos de silêncio interior.
E, quando já adulta, em idade, mas não em afectos, mergulhou os dedos no frasco, não conseguiu saborear nem uma só palavra: tudo estava, agora, de uma forma absolutamente bolorenta, fora de prazo!
©reginachocolate

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