Relações íntimas
Regina colocou a si mesma duas questões, para as quais encontrava respostas quase mudas de palavras...
- Como se relacionaria consigo própria se não tivesse uma cédula de nascimento ou qualquer documento que lhe lembrasse que nasceu naquele dia, naquele mês, naquele ano?
- Como se relacionaria consigo própria se não tivesse um espelho que lhe lembrasse que tinha um rosto, em qualquer dia, em qualquer mês, em qualquer ano?
Apesar do aparente absurdo dessas duas perguntas, divertia-se a caminhar pelas entrelinhas de possíveis respostas.
E imaginou-se a si mesma a dizer: - Eu tenho a idade e o rosto dos meus desejos, das minhas fúrias, das minhas paixões, dos meus medos...
- Quando anseio, semicerro os olhos e entreabro a boca como quem busca um ancestral e morno seio materno da infância; quando me revolto, a minha cara ganha a consistência de animal acossado e selvagem, com tantos anos quantas as cicatrizes de pele; quando se acende aquele ardor de comunhão de seres, mergulho em suor de têmporas, num jogo de adolescência despreocupada; quando me assola o pânico, fujo de uma forma tão veloz que o meu corpo acaba a correr atrás de um rosto que mergulhou na sombra de tudo, a arfar de cansaço asmático.
Que idade tem, Regina, afinal? Quarenta e oito anos de pêndulos regulares, entrecortados por alguns segundos de pacificação sem cronómetro...

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