O Tempo e a Vida
Regina sempre gostou de ouvir tocar os sinos das igrejas a anunciarem, ao longe, a caminhada compassada do tempo sem retorno.
Assim deviamos nós proceder, pensava ela, enquanto caminhava ao ritmo das badaladas das seis da tarde... Isso seria muito mais eficaz, para não cair no mito do que desejaríamos que voltasse a ser presente! O tempo tem apenas o sinal de obrigatoriedade de ir em frente - aí não há qualquer escolha... Então por que razão tanta gente retoma o toque de horas, dias, meses e anos do que ficou para trás; do que, deseje-se ou não, é irrepetível? E que graça teria poder escolher? Por exemplo, usar os mesmos protagonistas mas, talvez, novos argumentistas para recriar o vivido?
Assim deviamos nós proceder, pensava ela, enquanto caminhava ao ritmo das badaladas das seis da tarde... Isso seria muito mais eficaz, para não cair no mito do que desejaríamos que voltasse a ser presente! O tempo tem apenas o sinal de obrigatoriedade de ir em frente - aí não há qualquer escolha... Então por que razão tanta gente retoma o toque de horas, dias, meses e anos do que ficou para trás; do que, deseje-se ou não, é irrepetível? E que graça teria poder escolher? Por exemplo, usar os mesmos protagonistas mas, talvez, novos argumentistas para recriar o vivido?
E pôs-se a pensar quem escolheria para realizar o seu tempo ido... E entre Woody Allen ou Pedro Almodóvar, vacilava! Mas isto era ela a colocar uma nota de humor amargo, em tudo o que viveu como lhe foi acontecendo, certa de que tinha encontrado, frequentemente, maus (ou bons?) actores para com ela contracenarem.
E, depois de mais uma cíclica mudança de hora, na noite que acabara de dormir, pensava como criar o argumento que pudesse duplicar aqueles sessenta minutos de tempo de bónus de vida. Ainda se lembrou de contactar um especialista em curtas metragens, mas não foi preciso muita reflexão para suavizar o propósito - é que, passados seis meses, teria de compensar esse tempo, anulando-o!
Esquecida da convencionalidade de acrescentar oportunidades de vida, aqui e as anular, acolá, foi dedicar-se ao gozo de pintar telas, alheia aos sinos que do seu atelier nunca consegue ouvir.
E, depois de mais uma cíclica mudança de hora, na noite que acabara de dormir, pensava como criar o argumento que pudesse duplicar aqueles sessenta minutos de tempo de bónus de vida. Ainda se lembrou de contactar um especialista em curtas metragens, mas não foi preciso muita reflexão para suavizar o propósito - é que, passados seis meses, teria de compensar esse tempo, anulando-o!
Esquecida da convencionalidade de acrescentar oportunidades de vida, aqui e as anular, acolá, foi dedicar-se ao gozo de pintar telas, alheia aos sinos que do seu atelier nunca consegue ouvir.

6 Comentários:
Às 30 de outubro de 2006 às 11:18:00 WET ,
Filipe Tourais disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Às 30 de outubro de 2006 às 11:26:00 WET ,
Filipe Tourais disse...
Voltou-se atrás, uma hora repetida, aquela, precisamente. Oxalá assim fosse com uma qualquer hora mágica que quiséssemos repetir, à nossa escolha, e repeti-la, repeti-la, repeti-la, num ritual de deleite.
Às 30 de outubro de 2006 às 14:01:00 WET ,
Daniel Abrunheiro disse...
viva, Regina. obrigado pela chamada de atenção para/do Obvious.
Uma rosa para ti.
Às 30 de outubro de 2006 às 18:22:00 WET ,
ZOOM & PALAVRAS disse...
Olá Regina. Foi bom saber que começaste a escrever regularmente. E o mote das badaladas, após uma noite um pouco maior ... parece-me muito oportuno!
Às 30 de outubro de 2006 às 18:27:00 WET ,
ZOOM & PALAVRAS disse...
A propósito: "Gostei do sinal de obrigatoriedade de «ir em frente»" ... por saber que avançar implica obrigatoriamente aprender as lições do tempo que ficou para tràs. E para tal é bom "aprender a ser inteligente". O tempo é precioso demais para perder em filmes que não nos construam. Por isso gosto do modo como vives "as tuas horas" ... e tento ter presente este princípio na vivência das minhas!
Às 31 de outubro de 2006 às 10:33:00 WET ,
Anabela e Madalena disse...
A vida nos ensina, muitas vezes com um sabor de chocolate amargo, a seguir sempre em frente. É no viver INTENSO do presente, como o teu "gozo de pintar telas" ou em fazermos algo que nos dê prazer que reside a essência da vida, colocando na paixão com que o fazemos toda a experiência do passado já vivido.
Adorei, até ao tutano!...
Beijos,
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