Homenagem à Dor
Regina estava com aquela sonolência de terra em pousio; deslizava por mais um sábado à tarde dentro de portas, infindável e retemperador, com a languidez de quem necessita, periodicamente, do silêncio animado de milhões de sons de estimação, para voltar a afirmar-se, pela semana fora, num frenesim de trabalho e de projectos artísticos com algumas ardilosas concretizações.
Serviu-se de forte café, muito pouco, mas muito espesso, como sempre gostava, recolhido em chávena de porcelana criada para sair do armário, só mesmo em dias de festa, fosse qual fosse a comemoração...
E o motivo da festa, hoje, era a evocação de uma vida que admirava, que amava à margem de modas efémeras - Frida Kahlo!
E o motivo da festa, hoje, era a evocação de uma vida que admirava, que amava à margem de modas efémeras - Frida Kahlo!
Há quantos meses andava com este texto em gestação de cérebro e pele? Não o sabia, guiando-se menos pelo calendário do tempo, do que pela fermentação da matéria-prima das palavras.
Tinha aceite o desafio de pintar sobre o tema da Amizade, para colectiva exposição de muitos e variados artistas.
Animada por tal desafio conceptual, encontrou rapidamente o caminho para a concretização da Amizade, inscrita na tela - impunha-se a homenagem a uma pintora que admirava, mais do que pelo seu trabalho concretizado, pela intenção com que o criou.
E entrou pelo mundo de uma Amizade Imaginária e Mágica que Frida Kahlo revela no seu diário de existência sofrida.
Assumindo-se como o assunto que melhor conhece - ela própria - a pintora mexicana, das cores intensas e intencionais, confidencia a partilha de ser, que lhe encantou a infância, dando-lhe uma felicidade que nunca esqueceu, com uma menina que inventou para lhe quebrar a solidão - da mesma idade, mas com uma alegria e riso frequentes, bem como com a agilidade que, à pintora, por vários motivos, sempre lhe faltara. A amiga etérea bailava como se não tivesse nenhum peso e ela seguia todos os seus movimentos e contava-lhe, enquanto ela dançava, os seus problemas secretos. Quais? Não se lembrava. . .
Regina, com o relato de tal imaginária partilha, partiu para a tela em branco e, porque sempre se orientava pelos momentos de criatividade febril, recriou uma ambiência mexicana, colocando a pintora em orgulhoso pedestal. Dos cabelos, ao seu adorno em flores, dos ossos e músculos frágeis e inoperantes, aos adereços de brincos e colares, assumidos como folclore de esquecimento da dor, assumiu a sua heroína como mote e glosa da temática proposta.
Já com a Amizade exposta na tela, em texto, fotografia e tintas de México, foi observar os espectadores da sua intimista produção.
Então, as pessoas passavam, olhavam e nem sequer paravam para observar. As suas retinas apenas recolhiam a estranheza de um bocado de ferro enferrujado que, na pintura, fazia as vezes de uma coluna vertebral.
Que necessidade de colocar aquilo, ali? Um bocado de ferro enferrujado não serve para nada! - terão quase todas elas pensado.
Regina saiu da Galeria e foi-se embora; fugiu daquele lugar, sabendo que a homenagem que tinha criado trazia inscrita a marca da impossibilidade; ela era para ser entendida, apenas, pelos olhos invisíveis de alguém que vivera uma vida de pesadelo. E Regina, nesta sua evocação que percebeu privada, quase tinha conseguido chegar ao âmago indizível da dor...

1 Comentários:
Às 19 de novembro de 2006 às 20:36:00 WET ,
ZOOM & PALAVRAS disse...
Adorei, Regina... acho que foi dos textos mais bonitos que já escreveste... porque fala da "sabedoria superior"... do "invisível" e "indizível"... das vivências que permitem construir o nosso mistério, beleza e transcendência... Vou querer ver essas telas... e pôr-me à prova: compreender se sou ignorante ou merecedora de tal sensibilidade... Um grande abraço!
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