Doce Imaginação
Viessem muitos dias como este e Regina deixaria, eventualmente, de existir - a sua autora faria dela apenas uma saudosa recordação...
Como lhe era difícil, por vezes, encarar a sucessão dos dias e das noites, quando não punha à prova os seus quase constantes dotes de realizadora, construindo filmes que passava em privada tela interior.
Gostava muito mais do que inventava, do que daquilo que lhe era dado vivenciar. E isso aconteceu, mais uma vez, no dia em que se rendeu ao prazer dos sentidos, onde o chocolate deu o mote ao percurso feito dentro das muralhas do que lhe pareceu ser o pecado da gula! Nada se comparou ao que tinha prefigurado dentro de si mesma, em realidades cozinhadas de utopia.
O seu ser animado reforçava o voo de alma sempre que, em sorrisos interiores, fazia privadas festas de felicidade quase não partilhada...
Todos a sabiam incrivelmente comunicativa, mas ela, à hora de voltar para dentro das portas do recolhimento, aparecia a si mesma serenamente sentada no silêncio do seu lar e olhava para o fundo de si, reactualizando persistentes pensamentos que, nos últimos dias, ia desenrolando: muito mais doce e saboroso é, geralmente, o que se deseja viver; quase nunca o que se concretiza...
E com açúcar a escorrer-lhe, sobre o colo, mesmo em ponto de pérola, deitou-se em lençóis cálidos e saboreou os beijos que, nas suas curtas metragens, com sessões privadas, amiúde fantasiava.
