Para Timor, em qualquer Natal
Havia causas pelas quais Regina sempre se batia - uma delas era a causa timorense; e relembrou aquilo que, sobre tal assunto, há anos escrevera, colocando-se na pele de um jovem órfão, em vésperas de Natal...
Tau bátar ba rai,
Bátar mai fali.
Tau ema ba rai,
Ema lae mai.
Deita-se milho à terra,
Volta a vir milho.
Deita-se gente à terra,
Não volta a vir gente.
(Versos elegíacos tétum)
Sinto o cheiro da terra violada, saqueada e queimada e não quero olhar. Vou-me alimentando na hibernação da dor. O meu corpo e a minha alma estão desnutridos; o meu coração perdeu a cor vermelha... Estou aqui, sem réstias de força, estendido no chão, tal crocodilo inibido de lutar.
DESISTO!
Eis-me aqui, filho de gente honrada e sã. Mas já não é eficaz balbuciar o nome de meus pais. Ouço-me chamando mãe e a terra engole o som em eco de sombras. Grito o nome de meu pai e o arvoredo alto partilha-o com as estrelas, numa cumplicidade de noite escura.
Renasço morto...
DESISTO!
Há muitas luas que não surge o cheiro fresco dos campos, de sementes em germinação. O milho, o arroz e o feijão gelaram nas ondas de violência fria. Os frutos não amadurecem com aroma, sabor e luz. A vida desta terra vive de chorar os mortos. Um oceano de tristeza invade todos os caminhos.
DESISTO!
Pela primeira vez, desde o desaire, abro-me aos sons que crescem por dentro do chão e ouço o espírito dos meus avós, penetrando a minha indolente interioridade, dizendo:
- Os mortos estão em paz!
- Já nos ouviste queixar?
- Cuida bem da tua vida!
Abri os olhos - vi, lá longe, o milho ondulante em brisas de manhã...
Escutei o ar - ouvi pássaros ressuscitados à catástrofe...
Aspirei o espaço - a fecundação da natureza despontava em flores de um aroma solar...
Saboreei o chão - havia tufos de terra húmida para alimentar a vida...
Toquei o meu rosto - um sorriso desnorteava as minhas lágrimas estampadas de sal...
NÃO DESISTO!
Os sonhos de menino ainda permaneciam nas veias do meu ser adolescente, e a doce lembrança dos meus antepassados era o mote para quase toda uma vida ainda por glosar!
De pé, como um arbusto que verga mas não parte, revi esta ilha de montanhas azuis, com florestas de impenetrabilidade verde, de rios de água limpa. E, tal crocodilo deslumbrado, provei o vinho tingido dos frutos dos avós.
NÃO DESISTO!
E cheirou-me a sândalo, misturado com açafrão e pimenta.
E vi os cafeeiros em promessas odoríferas.
E olhei os morangueiros que se multiplicavam em frutos.
E acariciei violetas que perfumaram os poros da minha pele.
Um búfalo corria, ao longe, num frenesim de animal poderoso.
NÃO DESISTO!
Corri para casa; o poste - pilar do meu mundo - ainda se erguia para o céu. O telhado estava rendilhado de luz e, a meus pés, o prato de pedra outrora colocado por meu pai, abria-se às espigas de milho que as mãos atentas de minha mãe lá colocara, para que o espírito tutelar pudesse proteger as colheitas da nossa, agora só minha, futura vida. (Não sei se os espíritos são, por vezes, desatentos, ou se são completamente impotentes perante a maldade dos homens...)
Recolhi-me! Com os pés na terra, olhei o céu da minha casa - o dia adormecia e o silêncio falava com voz meiga. Eu fundava aqui, neste preciso e precioso momento, um novo mundo, um lugar de santidade divina que a todos os cantos do meu presente ser, recolhia.
Os mortos sentiam-se em felizes recordações de vida e, lá fora, a alma de um povo recomeçava a surgir!
Por toda a aldeia irrompiam mulheres ensaiando a dança do lenço, exibindo os seus panos brancos de esperança, em movimentos graciosos de morenos braços. Os seus cabelos adornavam-se de folhas verdes, onde brilhavam luas de ouro e prata.
Os homens bailavam, imitando o voo dos pássaros, vestidos de esperança, também.
Saí de casa e juntei-me ao coro de todos os sorrisos, que se desfizeram em serena prece: “... o pão nosso de cada dia nos dai hoje e, sobretudo, livrai-nos do mal. Ámen.”
Esta era a nossa única, a mais sonhada e genuína, prenda de Natal.
E ... NÃO DESISTIMOS!
Bátar mai fali.
Tau ema ba rai,
Ema lae mai.
Deita-se milho à terra,
Volta a vir milho.
Deita-se gente à terra,
Não volta a vir gente.
(Versos elegíacos tétum)
Sinto o cheiro da terra violada, saqueada e queimada e não quero olhar. Vou-me alimentando na hibernação da dor. O meu corpo e a minha alma estão desnutridos; o meu coração perdeu a cor vermelha... Estou aqui, sem réstias de força, estendido no chão, tal crocodilo inibido de lutar.
DESISTO!
Eis-me aqui, filho de gente honrada e sã. Mas já não é eficaz balbuciar o nome de meus pais. Ouço-me chamando mãe e a terra engole o som em eco de sombras. Grito o nome de meu pai e o arvoredo alto partilha-o com as estrelas, numa cumplicidade de noite escura.
Renasço morto...
DESISTO!
Há muitas luas que não surge o cheiro fresco dos campos, de sementes em germinação. O milho, o arroz e o feijão gelaram nas ondas de violência fria. Os frutos não amadurecem com aroma, sabor e luz. A vida desta terra vive de chorar os mortos. Um oceano de tristeza invade todos os caminhos.
DESISTO!
Pela primeira vez, desde o desaire, abro-me aos sons que crescem por dentro do chão e ouço o espírito dos meus avós, penetrando a minha indolente interioridade, dizendo:
- Os mortos estão em paz!
- Já nos ouviste queixar?
- Cuida bem da tua vida!
Abri os olhos - vi, lá longe, o milho ondulante em brisas de manhã...
Escutei o ar - ouvi pássaros ressuscitados à catástrofe...
Aspirei o espaço - a fecundação da natureza despontava em flores de um aroma solar...
Saboreei o chão - havia tufos de terra húmida para alimentar a vida...
Toquei o meu rosto - um sorriso desnorteava as minhas lágrimas estampadas de sal...
NÃO DESISTO!
Os sonhos de menino ainda permaneciam nas veias do meu ser adolescente, e a doce lembrança dos meus antepassados era o mote para quase toda uma vida ainda por glosar!
De pé, como um arbusto que verga mas não parte, revi esta ilha de montanhas azuis, com florestas de impenetrabilidade verde, de rios de água limpa. E, tal crocodilo deslumbrado, provei o vinho tingido dos frutos dos avós.
NÃO DESISTO!
E cheirou-me a sândalo, misturado com açafrão e pimenta.
E vi os cafeeiros em promessas odoríferas.
E olhei os morangueiros que se multiplicavam em frutos.
E acariciei violetas que perfumaram os poros da minha pele.
Um búfalo corria, ao longe, num frenesim de animal poderoso.
NÃO DESISTO!
Corri para casa; o poste - pilar do meu mundo - ainda se erguia para o céu. O telhado estava rendilhado de luz e, a meus pés, o prato de pedra outrora colocado por meu pai, abria-se às espigas de milho que as mãos atentas de minha mãe lá colocara, para que o espírito tutelar pudesse proteger as colheitas da nossa, agora só minha, futura vida. (Não sei se os espíritos são, por vezes, desatentos, ou se são completamente impotentes perante a maldade dos homens...)
Recolhi-me! Com os pés na terra, olhei o céu da minha casa - o dia adormecia e o silêncio falava com voz meiga. Eu fundava aqui, neste preciso e precioso momento, um novo mundo, um lugar de santidade divina que a todos os cantos do meu presente ser, recolhia.
Os mortos sentiam-se em felizes recordações de vida e, lá fora, a alma de um povo recomeçava a surgir!
Por toda a aldeia irrompiam mulheres ensaiando a dança do lenço, exibindo os seus panos brancos de esperança, em movimentos graciosos de morenos braços. Os seus cabelos adornavam-se de folhas verdes, onde brilhavam luas de ouro e prata.
Os homens bailavam, imitando o voo dos pássaros, vestidos de esperança, também.
Saí de casa e juntei-me ao coro de todos os sorrisos, que se desfizeram em serena prece: “... o pão nosso de cada dia nos dai hoje e, sobretudo, livrai-nos do mal. Ámen.”
Esta era a nossa única, a mais sonhada e genuína, prenda de Natal.
E ... NÃO DESISTIMOS!
