regina - nome de chocolate e de mulher

23 setembro, 2007

A Mão que Oferece e a que Apunhala

Só depois de ter chorado é que Regina conseguiu dar início ao texto.
Tinha estado, nos últimos dias, agarrada a uma dor com nome, mas sem rosto...
Após o dia de trabalho, sabia-lhe bem, de vez em quando, dar-se ao luxo de um ócio cheio da inconsequência de uma mesa de esplanada, virada para a serra encimada de turbinas eólicos que, àquela distância, se lhe afiguravam como cata-ventos de Feira Popular.
Nesse lugar divagava sem relógio, a partir de cenários tão inócuos como o de um avô e um neto que, nas proximidades, acolhiam o fim do dia numa calmaria de retemperador regresso ao lar.
Idoso e criança retomaram a caminhada para casa e Regina continuou a deambular sentada, olhos postos na serra, percebendo como as turbinas subiam e desciam, tal como a roda da vida de todos os homens.
E foi nesse aparente abrandar do ritmo do mundo que recebeu, tal bofetada directa nos seus neurónios, a notícia; aquela que pertence ao inventário das más, pois eram essas que, como ela bem sabia, corriam depressa: o avô daquele neto que, momentos antes, se sentara por perto e que parecia, como Regina, sentir o bálsamo de mais um crepúsculo, tinha estado em contagem decrescente, preparando os detalhes do abismo - o dele, é certo, mas principalmente o de algumas pessoas de paz.
Fechou o pequeno neto em casa, passou pela cozinha para se apetrechar de inocente faca de alimentos e, degrau a degrau, subiu sem cerimónias. Ele ia cumprir aquilo a que a sua justiça louca o obrigava... E cumpriu... E matou... Tendo por espectadores a mulher deste senhor mal amado pela sorte, que começou paulatinamente a desfalecer exangue e os seus dois pequenos filhos, na maior cena de espanto e dor que alguma vez se irá repetir.
Meses atrás, o assassino tinha-se sentado à mesa do último Natal dessa família, convidado pela mão de uma generosidade boa e ingénua...
A tragédia espelhava-se, dia seguinte, nos olhos dos habitantes da Lousã, à medida que a notícia se espalhava pelas pequenas ruas silenciosas e incrédulas.
Na Igreja Matriz surgia, noite dentro, a informação do dia e da hora de um enterro absurdo e Regina, aproximando-se devagar, para poder interiorizar um rosto que desconfiava identificar, ficou muito tempo perdida, de olhar vagueando contra a parede - é que alguém tinha rasgado a fotografia do homem que, depois de mutilado em vida, o era agora, também, na morte! Quem continuava a assassinar?
Apeteceu-lhe, em pleno adro da igreja, gritar as vísceras lúcidas da sua indignação!