regina - nome de chocolate e de mulher

07 janeiro, 2008

Ciclos

Regina apercebeu-se disso quando a noite ia crescendo... Percorreu todas as ruas da sua vila de aconchegos e, com uma tristeza súbita, fez esta constatação: apagaram-se as luzes do Natal!
Sempre ansiava, quando o Inverno nascia, que as noites chegassem coloridas de pontos de celebração e festa... Isso iluminava-lhe o sorriso e permitia-lhe retomar, casa dentro, afectos de paredes engalanadas de bolas de cristal e fitas de seda carmim.
Então, os dias adensavam-se de azáfamas e o cheiro da canela em pó dava ao ar que respirava fragrâncias de um Oriente que só conhecia dos livros - dos livros das Mil e Uma Noites.
É que ela vivia em função do tempo forte dos mitos, pois sabia que a imaginação era o alimento predilecto de todos os Homens; e isto desde os tempos mais remotos...
Agora, acreditando que os meses de Inverno hão-de, em breve, ter os dias contados, começa a esquecer o cenário de apagão de energia festiva e, por dentro da sua camisola de lã, só consegue fantasiar uma nova Primavera que voltará a nascer como sua irmã de luz natural.
No promontório do seu meio século de existência, e com um entusiasmo controlado de quem vive sem futuro rigidamente delineado, sabe que o Natal se reacenderá e apagará na altura certa, bem como o seu aniversário, as estações do ano, o dia e a noite, mas nunca o ar que respira; é que ela sente-se mortal, apesar da imaginação...